O Joguete
(Por: Fernando David [Sanagues])
Naquela manha, Flávio acorda um pouco mais cedo que de costume.
- Que maldito calor – sussurra mesmo antes de abrir os olhos.
Sonolento, vai direto para o banho, quem sabe uma ducha bem fria o anime para o trabalho, como se a "água", resolvesse o seuproblema.
O jovem de vinte e três anos, à oito no mesmo emprego de office-boy.
- "Tudo bem, é o meu primeiro emprego", - raciocinava, mas o que o deixa indignado, é que todos na repartição, até mesmo, os com menos tempo de casa e de experiência, já haviam o ultrapassado.
Seis horas e quinze minutos, conferidos no relógio digital, nunca, que se recordasse, saíra tão cedo de casa.
Durante o trajeto, mesmo bem acomodado, com o ônibus mais vazio que decostume, o calor, aquela hora da manhã, anunciava um "dia" daqueles.
Por inúmeras vezes, Flávio entrou em atrito com seu encarregado, departamento público, todos concursados, demissões não haviam, e atritos, eram comuns e não cessariam, mas a promoção, neste ciclo vicioso, nunca viria.
O gênio forte, sem dúvida, foi forjado ali.
Flávio entrou pela primeira vez naquela repartição, um menino, sem um pelo no rosto, mas servindo café, recolhendo o lixo dos cestos, e carregando pesadíssimos volumes de papeis, e subindo e descendo de arquivos deteriorados.
Hoje, era um jovem forte , ha excelência no que fazia, além de músculos, o trouxe, a uma nova chance, "o mundo lá fora.
"Engolir a poeira, foi o estágio. Sair hoje para rua, era de certa forma, uma promoção.
Toda á impessoalidade do local, o tornou bruto com o mundo.
Para evitar novos embates, o encarregado dos despachos, colocava, pontualmente os oito horas, o envelope com todo o serviço externo, na caixa de saída.
Bastava, que Flávio o pegasse, e cumprisse com suas obrigações.
Sete horas e dez minutos.
- Nunca cheguei nesse horário.- pensou conferindo o relógio.
Não havia uma viva alma naquele escritório.
- Que dia quente.–pensava enquanto bebia um copo de água.
Mesmo sabendo ser improvável, resolveu abrir a caixa de saídas, e surpreso, achou um envelope.
Havia um itinerário, e vários documentos para serem protocolados, nos mais diversos pontos da cidade, cartórios, prefeitura, sindicatos.
Um dia cheio.
Flávio achou aquilo muito estranho, mas lembrou que não seria nada impossível, o seu carrasco, ter colocado aquilo de véspera.
Respirou fundo, e aproveitando o eco, do ambiento silencioso e vazio.
Berrou um par de palavrões, e saiu para o serviço.
Antes mesmo do almoço, já havia percorrido a metade do cronôgrama.
Por volta das quatorze horas, o estômago roncou fundo, Flávio conferiu sua carteira, e contabilizou:
- Dois sucos, um refrigerante, cinco conduções; mesmo que fizesse um serviço a pé, o saldo não seria suficiente para um almoço, um salgado talvez; mas preferia um sorvete.
Por isto teria de andar um pouco, mas o calor era infernal, e julgava não ter opção.
Sentou-se na praça e tomou o sorvete.
A cada lambida, matava a sede do calor, mas nutria além do corpanzil, outra coisa, a raiva.
Oito anos de mal convíviu, tornaram, Flávio e seu encarregado, em inimigos.
O homem, na casa dos sessenta anos, funcionário de carreira, dos quais mais de quarenta dedicados áquela repartição.
No decorrer dos anos, pouco dava importância ao infeliz subalterno, na concepção dele, era apenas um jovem afoito, e sua hora chegaria. mas a imaturidade de Flávio, nos últimos tempos, chamou a atenção do rigoroso chefe; e numa de suas tempestuosas reclamações, o velho homem ouviu Flávio rogando-o:
- Eu quero mais é que esse velho demônio morra, - dizia Flávio.
- Calma rapaz.- sugere um dos escriturários.
- É isso mesmo que penso, e sabe o que mais, se deus quiser eu morro antes de ficar um velho nojento como esse. – completou.
- Rapaz, não diga isso, você é jovem, terá a sua chance.
- Chance de ficar louco, ou de ficar velho? – pergunta irônico.
- Não diga isso, todo velho é sistemático, você tambémo será.
- Eu prefiro a morte. - conclui.
- Os senhores estão sem serviço. – indaga a voz.
A porta se fecha, e os dois jovens, ficam do lado de dentro da saleta.
- Está vendo só o que você fez. – conclui o amigo, deixando Flávio sozinho.
- É bom mesmo que esse velho saiba. - conclui Flávio.
Engolindo o ultimo pedaço da casquinha do sorvete, Flávio, resolve conferir o restante do itinerário.
Já, a alguns anos no serviço externo, acostumou-se com o mesmo, e a "sistemática" do velho.
Sempre haviam os endereços,l ocais, e horários que deveriam ser; ao menos em tese; cumpridos a risca.
Mas era imprescindível. E todos na repartição sabiam disso. Que o serviço fosse todo executado.
Flávio, correu os olhos nos oito endereços, e concluiu.
–Muito bom, só restam três. - Que diabos é isso! – Olhou para o rodapé da folha, e seus olhos surpresos, detectaram uma minúscula palavra.
Passou a mão sobre o papel e continuou:
– Droga, deve ser do sorvete.
Mas não era.
Percebendo que a escrita não saia, Flávio, levou o papel bem próximo dos olhos e conseguiu enfim ler.
– Vire.
O rapaz virou a folha, e no seu rodapé, em diminutas palavras, havia uma mensagem.
" Retirar um volume na Rua Providencia Divina, nº 33, 6º andar sala F, impreterivelmente, até as 18 horas."
- Desgraçado. - esbravejou, espantando as pombas da praça.
Flávio olhou para o relógio, e conferiu sua sorte, eram quatorze horas e quarenta minutos.
Teria pouco mais de três horas para concluir os quatro afazeres restantes.
Que droga de vida, pensava e olhava para o relógio.
Graças ao sorvete, o dinheiro restante, não era suficiente para as quatro viagens, planejando com calma, Flávio modificou um pouco seu trajeto, e conseguiria ao menos chegar aos locais.
Só não saberia, se em tempo hábil.
Sem muito problema completou duas tarefas.
Ter amigos nas filas sempre ajudava, mas rumando a prefeitura, que até horas atrás, achava ser seu ultimo destino, dentro do ultimo ônibus, e sem um centavo no bolso, Flávio pensou:
- Mas que filho de uma grande ..., aquele velhote nunca fez isso, está me retaliando, porque sabe que eu, o odeio. isto, é só para metestar. -pensava conferindo o relógio. - dezesseis horas e cinqüenta ecinco minutos.
Após protocolar algumas certidões, saindo da prefeitura; Flávio confere novamente a hora, dezessete horas e trinta e cinco minutos.
- Pensa que sou burro, não vou pegar pacote nenhum. Aposto como isso é serviço pessoal. Eu nunca o faria um serviço pessoal. –conclui.
Flávio estava inquieto, o calor infernal daquele dia incomum, o estava deixando exausto. Não fisicamente; mas aquele imprevisto, mexera com ele.
Decidido a ir para casa, Flávio, entrou num beco e enquanto se dirigia para o ponto do ônibus, arquitetava:
- Se algum conhecido estiver por lá, eu consigo um empréstimo para a passagem.
Cabeça baixa, chutando pedras, poucas vezes passara pelo beco, e refletindo sobre tudo, encaixou as idéias.
Será que o não cumprimento do itinerário todo, pode me enquadrar como "não eficiente" na função. Se for isto, aquele maldito, plantou minha ruína.
Somente em três casos, algum funcionário publico, daquele setor, poderia ser dispensado, pelo seu encarregado direto.
Quando, à ofensa moral, e/ou vias de fato. (briga), quando ha roubo, furto ou subtração de qualquer objeto, pessoal ou institucional, e finalmente, quando o funcionário é considerado, ineficiente para a função.
Essa regra simples, latejava na mente de Flávio.
Seria a gloria para aquele velhote, e a minha maior falha. –pensava.- Sou um Joguete na mão daquele desgraçado. - sussurra.
Na esquina do beco, Flavio olha para as placas presas no poste, e arregala os olhos quando lê.
"Rua dos Lírios / RuaProvidenciaDivina".
– Enfim um pouco de sorte. – grita Flávio dobrando a direita.
Conferindo a numeração da rua , o rapaz, corre alucinadamente para chegar a tempo, e concluiu estar dois quarteirões do numero indicado.
Numa rápida conferida no relógio, - Dezoito minutos, eu consigo!!!. –diz confiante.
Enfim, o numero 33, um prédio escuro, marrom desbotado, muito antigo, sem se alongar muito na fachada, Flávio empurra a pesada porta devidro e avista o elevador, corre o máximo que pode em sua direção, e com o coração latente na boca, aperta o botão seis.
O elevador não se mexe, aflito, da uma rápida olhada no relógio, e confere, "faltam doze".
Insiste em apertar o botão, e antes de esmurrar o painel, ouve.
- Calma meu rapaz, ele não vai a lugar algum sem mim.- conclui o acessorista.
- Por favor senhor, preciso ir ao sexto andar. - conclui preocupado.
- Sim senhor, só um segundo.
De repente, uma senhora muito bonita e bem vestida, entra no elevador
e cumprimenta todos – boa tarde.
Após cumprimenta-la, o acessorista inicia o fechamento da porta, mas antes de findar, ouve:
- Sobe!!
Nova parada, a porta se abre, e um senhor, também entra no elevador.
- Quinto andar pôr favor. – diz o homem.
- O Quarto pôr favor. – confirma a mulher.
- Eu já apertei o sexto, pôr favor, podemos subir? –suplica Flávio.
- Calma meu jovem, paciência é uma virtude. – diz o acessorista.
- Isso ele ganha com a idade. – conclui o passageiro do quinto andar.
- Não se preocupem serei um velhinho bem virtuoso. – conclui Flávio.
- Segundo andar.- Ninguém vai ao segundo, é quarto, quinto e sexto andares.– diz o jovem, malcriadamente.
- Não vai descer no segundo? – insiste o acessorista.
- Não, pelo amor de deus, é sexto andar. - fala irritadiço.
- Sim senhor, o senhor é quem manda.
A porta se fecha e torna a abrir no quarto andar.
- Quarto andar. – como em quarenta, a idade da loba.
- fazendo um trocadilho infame.A mulher dá um sorriso e sai do elevador.
E a porta se fecha, e o elevador continua.
- Quinto andar. – como em cinqüenta, meio século de experiência.
O homem retribui a gentileza sorrindo, e sai do elevador.
A porta de fecha, e o elevador continua.
- Sexto andar.
Flávio não espera o trocadilho, e salta procurando a sala F.D á uma conferida no relógio, faltam oito minutos.Percorre o sujo corredor, e identifica, salas "A","B" e "C", avistadois banheiros, masculino e feminino, e ao longe enfim vislumbra, asplacas, salas "D", "E" e "F".
Apressadamente bate na porta da sala "F", e nada acontece.
A ausência de campainha, o deixa nervoso, e com mais força, bate na porta.
Após alguns segundo de silêncio, as trancas da porta giram, aporta abre uma pequena fresta, a corrente de segurança, impede ver quematende.
- O que deseja? - Pergunta, a rouca voz feminina.
- Eu vim retirar um volume, é para o escritório contábil.– conclui.
A mulher estica um dos braços, e entrega um pequeno embrulho, menor que um maço de cigarros, envolto em papel pardo.
- Obrig....
A porta bate com força, impedindo o agradecimento do rapaz.
Aliviado, o jovem caminha em direção ao elevador, e avista, que no fim do corredor, á um bebedouro.
Flávio aperta o botão, e antes que saia algo, o velho motor elétrico da máquina, range por cerca de três segundo, até jorrar uma água morna e enferrujada, que aos poucos fica límpida e fresca.
Quando finalmente o rapaz consegue saborear a água, saído do toalete um senhor de idade bem avançada, o empurra com todo o resto deforça que tem, tentando beber um pouco de água.
Sua pouca paciência, e a suposta arrogância do velho, muniu Flávio de uma raiva descomunal, e antes que o velhote pudesse sorver algo, o rapaz o empurra com força, jogando-o contra a parede.
Antes de bater a cabeça na parede e ficar desacordado, o velho homem ainda grita. – Seu Tolo!!
Flávio, indignado com o velho, porém, filtrando o ocorrido, se desespera e confere com um movimento de corpo, que o velhote sangra pelo ouvido.
- Meu deus, o que foi que eu fiz.- se pergunta tentando entender. Algumas lagrimas caem de seus olhos. - Isso não pode estar acontecendo, eu matar um homem! – fala em prantos.
Estava arrependido, mas no extinto da sobrevivência, sabia quet inha uma chance de sair dali e continuar sua jovem vida.
A campainha do elevador toca, sinal que o mesmo, vem chegando ao andar.Co
m medo de ser visto ali, junto ao corpo, Flávio entra no toalete masculino e se tranca num dos reservados.
Por alguns instantes, sentado no vaso sanitário, chora e pensa em tudo que ocorreu naquele dia infernal.
- Meu deus, meu deus, repete semparar.
Flávio, cobre com as mãos o rosto, tentando conter as lagrimase o desespero de causa.
Após múrmuros e lamentações, o jovem tira as mãos do rosto, e assustado repara em suas mãos.- O que há comigo- indaga sem entender.
As mãos de Flávio estão rugosas, como a de alguém que ficou horas embaixo da água, seu sapato parece folgado, seus ombros caídos, acalça e a camisa, largos. Passa a mão na sua cabeça e sente de imediato a falta dos cabelos.
Com dificuldades, fica em pé e abre a porta do biombo.
Bem em frente de onde está , avista o acessorista, sentado numa cadeira ao lado do espelho, segurando toalhas de papel
.- Boa tarde meu senhor. – diz sorridente.- O que esta havendo comigo?
- O senhor me parece muito bem.
Flávio caminha em direção ao espelho e vê que suas vistas estão péssimas, a medida que se aproxima, seu foco melhora e consegue enfim, ver no reflexo, que está velho.
- Meu DEUS, eu à pouco, era um homem de vinte e três anos.
- É, os anos passam, a gente nem sente, não é mesmo? –pergunta o homem.
- Meu senhor, eu acabei de subir com os outros no elevador, queria ir até o sexto, não se lembra de mim?
- Sim, o apressado, sim me recordo do senhor, deveria ter descido no segundo.
Flávio, apoia-se no mármore da pia, e tenta abrir a torneira, para lavar o rosto.
- Mas o caso do senhor, só depende do senhor, não é mesmo?– indaga.
- Está quebrada, não sai água. - reclama o velhote.
Enquanto falava coisas, sem sentido aparente, o acessorista, olha em seu relógio, e pega uma caixinha azul do bolso, e retira uma pílula, também azul, de um tamanho considerável, o maduro homem tem um pouco de dificuldade de engolir, mas, com um certo esforço, consegue.
- Eu não entendi nada que o senhor me disse .– conclui Flávio.
- Pode me chamar de você. – diz o homem.
O então velho Flávio, concentrado em sua decrépita imagem,tão pouco reparou no que acontecia a seu lado.
Olhou para o acessorista e....
- Que diabos ocorre aqui.- diz confuso – vendo no lugar do acessorista, um jovem rapaz.
- Somos todos peças de um enorme tabuleiro. - diz o jovem ascensorista.- Eu odeio Joguetes, foi um que me trouxe a este maldito lugar.
- Eu achei, que com o tempo o senhor fosse mudar, mas pelo visto aqui, o senhor nunca mudará.
- Como fez isso, como ficou jovem novamente? - pergunta Flávio irritadiço.
- Eu já disse, seu caso e semelhante ao meu, semelhante, mas, não é igual, e também, só depende de você.
- O que tenho de fazer?
- A solução para o seu problema, pode estar no seu bolso?
- Eu não tenho um mísero centavo. - esbraveja o velhote.
O acessorista sorri, balança a cabeça em negativa, e indignadamente diz:
- O pacote, que acabou de receber, a cura pode estar nele.
- Não é meu..., que diabos, vou abri-lo. – o velho e angustiado homem, rasga o papel pardo e deixa desnuda, uma pequena caixa azul, e dentro uma pílula, da mesma cor.
- Você tem exatos, 20 segundos para fazer uso dela. – afirma o jovem acessorista, olhando para o relógio.
Flávio olha para seu relógio, e confirma, 17:59:42s, 43, 44...O velho desesperado, joga o comprimido boca adentro, e percebe ser impossível, engoli-lo à seco, e para piorar, aquela torneira não funcionava.
- O bebedouro. – indica o homem.
O velho, corre o máximo que lhe é possível, e, ao se aproximar do bebedouro, (- Onde está o morto? – pensa), consegue, focalizar um rapaz, tentando beber da água.
Um pouco antes de tentar, com o resto de suas forças, empurrar o homem, Flávio, num movimento de perspicácia, "reconheceu-se."
"O velho, no maior paradoxo de sua vida, empurra a si mesmo, e , no revide do jovem, se mata novamente."
E, em seu ultimo suspiro, diz. - Seu Tolo!
Não é todo dia, que o seu carrasco, é você mesmo.
Flávio, está preso, à uma maldição, um funesto ciclo de intolerância, vivendo, como a uma moeda, que tem em suas duas faces, a mesma coroa.
Muitas vezes, leva-se uma vida, para conhecer à si próprio, o que dizer, de um mísero instante.
Mas Flávio, terá toda uma eternidade, para tentar, mudar este instante. Todos nós, somos peças de um Joguete... e à sempre uma chance...A não ser... que você esteja como Flávio... em xeque-mate.
Fernando David.
